
Entrevista
A Socorro é muito mais do que uma loja de discos e livros, é um espaço onde a música, a literatura e a arte convivem. Criada por Artur Nogueira e João Pimenta, a loja tornou-se muito atrativa tanto para os artistas como para o público.
Nesta conversa, falámos com João Pimenta, um dos fundadores, sobre a origem do projeto, a ligação à cidade e o seu papel na cultura portuguesa.

Entrevista com João Pimenta
Como surgiu a ideia de fundar a Socorro?
Eu e o meu sócio, o Artur Nogueira, já tínhamos esta ideia há algum tempo. Queríamos criar um espaço multidisciplinar, que além de discos e livros, também tivesse uma sala de concertos. Quando encontrámos este local, percebemos que ele podia ter um grande potencial, uma vez que tem três andares e uma sala com boas condições. Sendo assim decidimos avançar com a ideia, já tivemos concertos, teatro, dança e até stand-up comedy.
Trabalham diretamente com artistas?
Sim. Vendemos discos e livros através de distribuidores, mas também trabalhamos diretamente com músicos e autores independentes. Por exemplo, recentemente o Tó Tripes deixou aqui alguns discos a solo. Além disso, a nossa sala de concertos é usada tanto por nós como por promotores e bandas que a alugam para concertos.
Como equilibram o lado comercial e o lado cultural?
Antes de mais, isto é um negócio. Temos rendas e salários para pagar, não vivemos de apoios públicos. Acho que cabe à Câmara Municipal promover atividades culturais públicas. Nós fazemos o nosso papel como espaço privado, mas tudo o que acontece aqui é fruto do nosso próprio investimento e risco.
Como tem sido a adesão do público?
Tem sido boa, mas varia muito. Já tivemos eventos cheios e outros quase vazios. Depende do género musical e do dia. O Porto tem muita oferta cultural, às vezes até demais e isso dispersa o público, o que se torna um problema.
E quanto ao barulho dos concertos?
Nunca tivemos queixas! A sala é subterrânea, sem vizinhos diretos, e o isolamento é muito bom. Usamos portas duplas de aço e fazemos tudo dentro dos horários legais.
Qual é a vossa visão sobre o papel dos artistas independentes?
Eu sou músico desde os anos 90 e já toquei em muitos países. No sul da Europa é mais difícil uma vez que há menos apoios e cachês. Em Portugal, o público é limitado e a maioria dos concertos fora das grandes cidades depende de apoios municipais. Sem isso, seria impossível manter muitos espaços.
E quanto à sazonalidade dos concertos?
No verão há pouca procura porque há demasiados festivais ao ar livre. Estes festivais tiram o público às salas, mas fazem parte do nosso ciclo natural da música. Sendo assim a nossa sala funciona melhor entre os meses de setembro e dezembro e fevereiro a maio, pois é quando não há tantos concertos e festivais.
Que importância têm espaços como a Socorro para a cultura local?
Estes espaços são fundamentais! Dão palco a bandas novas e criam comunidades. Por exemplo, vamos ter o Chabalofest, uma banda de jovens. Sendo assim, estes espaços ajudam a formar futuras gerações de músicos e públicos.
A estética da loja chama muito a atenção. Como a pensaram?
Mantivemos quase tudo como estava. Este lugar era uma antiga oficina e quisemos preservar o chão, o mármore e a estética industrial dos anos 50. Sendo assim fizemos poucas alterações, construímos o palco e metemos alguns móveis, quisemos sobretudo respeitar o espírito original do espaço.
Por fim, que mensagem gostariam de deixar a quem visita a Socorro?
Sobretudo, quero que sintam que este é um espaço que faz falta à cidade, um sítio que eu próprio gostava de ter encontrado quando me mudei para o Porto. A cidade mudou muito desde então e merece lugares assim, onde a cultura é viva e próxima das pessoas.
A Socorro quer continuar a crescer e a fazer a diferença, sendo um espaço onde todos podem aproveitar, partilhar e viver a cultura de forma genuína.


Entrevista em áudio
Para quem preferir ouvir, deixamos aqui a entrevista completa em áudio, onde podem escutar a conversa original com o João Pimenta, tal como aconteceu, com todos os detalhes e sem tabus. E além disso, com algum conteúdo extra que não foi mencionado na versão escrita.
